sábado, 16 de abril de 2005
O mar por estrada
A poucas horas de apanhar o quinto avião em menos de duas semanas, lembrei-me das palavras que eu própria escrevi noutro blog, em jeito de comentário a um post do autor do Foguetabraze. «Estar sempre de partida ou de chegada é um dialecto que os açorianos cosmopolitas conhecem melhor do que ninguém. É o preço que todos temos de pagar por não conseguirmos ficar presos num só pedaço de terra. Ter o mar por estrada (como escreveu o Carlos noutro blog), dá-nos a obrigação de o percorrer. Nos dois sentidos!» Foi há mais de dois meses que as alinhavei, mas bem podia ter sido hoje. Mais uma vez, estou de saco às costas, a caminho do aeroporto. Qualquer dia, já nem preciso mostrar o BI às meninas do Check-in. A verdade é que o meu conta-quilómetros terá sempre lugar para umas milhas extra. Afinal, partir é o primeiro passo para chegar. Seja aonde for esse lugar a que a viagem me conduz.
Gado Bravo crash down
Ok, não se assustem! eh eh eh!
O pc da nossa vaca-mor Gado Bravo "foi à vida" (sic) , pelo que ela está impedida de postar até que a situação se resolva...
Desejamos todos que volte depressa! We already miss you!!!
***
Abraços das bravas (posso falar por todas, não posso? ó pá, já falei. lol)
Caiê
ps- Confirma-se o (meu) cepticismo nas novas tecnologias. Mulheres, mantenham isto vivo até a R. voltar!
O pc da nossa vaca-mor Gado Bravo "foi à vida" (sic) , pelo que ela está impedida de postar até que a situação se resolva...
Desejamos todos que volte depressa! We already miss you!!!
***
Abraços das bravas (posso falar por todas, não posso? ó pá, já falei. lol)
Caiê
ps- Confirma-se o (meu) cepticismo nas novas tecnologias. Mulheres, mantenham isto vivo até a R. voltar!
quinta-feira, 14 de abril de 2005
A importância das pequenas coisas
Já repararam no paradoxo que é a vida? Quando a felicidade nos envolve, fechamos-lhe a porta na cara e ficamos presos nas pequenas coisas negativas que nos impedem de ver o todo. Quando a tristeza nos rodeia, desprendemo-nos das coisas negativas e agarramos outras pequenas coisas, que nos transmitem a beleza de um mundo que parecia já não existir.
A vida, de facto, é feita de pequenas coisas e, às vezes, retempera-se nas mais extraordinárias insignificâncias. Um raio de sol, um cheiro da infância, um olhar encantado, um sorriso profundo, uma gargalhada traquina.
Hoje, foi a alegria de uma criança correndo num pátio triste, atrás de uma cadela farfalhuda, que transformou o meu dia. O força do seu abraço amigo, que quase sufocou o animal que insistia em escapulir-se para onde não devia, fez-me viajar no tempo. Recordei, por momentos, a criança que um dia fui naquele mesmo pátio e senti-me feliz por alguém ter preenchido o vazio.
A vida, de facto, é feita de pequenas coisas e, às vezes, retempera-se nas mais extraordinárias insignificâncias. Um raio de sol, um cheiro da infância, um olhar encantado, um sorriso profundo, uma gargalhada traquina.
Hoje, foi a alegria de uma criança correndo num pátio triste, atrás de uma cadela farfalhuda, que transformou o meu dia. O força do seu abraço amigo, que quase sufocou o animal que insistia em escapulir-se para onde não devia, fez-me viajar no tempo. Recordei, por momentos, a criança que um dia fui naquele mesmo pátio e senti-me feliz por alguém ter preenchido o vazio.
Imagem do novo poster do OMA
Para amigos... são 5 euros o poster. Tem que ser, já que o Observatório do Mar dos Açores é uma instituição sem fins lucrativos.
Quem quiser pode encomendar aqui, que tenho a certeza que a brava C. os reserva com toda a sua bondade, e eu como sou caridosa, faço a gentileza de os trazer para o mês que vem. Promoção válida aos habitantes do Faial e S. Miguel.
quarta-feira, 13 de abril de 2005
Pascoaes (1877-1952)
Teixeira de Pascoaes produziu a partir da experiência existencial da saudade - presente de forma vaga e imprecisa nos seus primeiros textos em verso - uma reflexão, a que subjaz o princípio fundamental de que o ser manifesta uma condição saudosa. Do Ser ao ser, processa-se uma verdadeira queda ontológica, uma cisão existencial, manifestando o mundo, na sua condição decaída, um "pathos universal". Da condição saudosa de ser resulta pois uma condição dolorosa do mesmo ser. Dor de privação, dor de saudade, consciência da finitude, de imperfeição, de insuficiência ôntica.
A experiência da dor pelo homem saudoso, é simultaneamente individual e universal. Por ela o homem–poeta-filósofo entende o mundo como "uma eterna recordação", percebendo a realidade como evocadora de uma outra realidade mais real que aquela.
A condição dramática da existência manifesta-se assim numa permanente tensão entre Ser e existir. O homem existe num primeiro nível de dignidade ontológica, partilhando pelo corpo o mundo da matéria, e vive pelo espírito. A vida é pois uma eterna aspiração à ultrapassagem da realidade material. O "pensamento poético" de Teixeira de Pascoaes é a expressão da possibilidade de conhecimento que se abre pela via da saudade. O conhecimento filosófico-poético é simultaneamente estético, metafísico e ontológico: estético porque o que lhe é próprio se conhece pelo sentimento, metafísico e ontológico porque o seu horizonte é o da verdade que manifesta um caracter transcendente.
A condição dramática da existência manifesta-se assim numa permanente tensão entre Ser e existir. O homem existe num primeiro nível de dignidade ontológica, partilhando pelo corpo o mundo da matéria, e vive pelo espírito. A vida é pois uma eterna aspiração à ultrapassagem da realidade material. O "pensamento poético" de Teixeira de Pascoaes é a expressão da possibilidade de conhecimento que se abre pela via da saudade. O conhecimento filosófico-poético é simultaneamente estético, metafísico e ontológico: estético porque o que lhe é próprio se conhece pelo sentimento, metafísico e ontológico porque o seu horizonte é o da verdade que manifesta um caracter transcendente.
«Irmana-te às cousas brutas; integra-te na realidade que ergue, em volta de ti, a sua tremenda arquitectura universal.
Meio-dia. Nem um vestígio de bruma. A claridade salienta, dum modo
imprevisto e cruel, os ângulos que nos ferem e os relevos que nos esmagam.
Os relevos tornam-se densos e volumosos até à forma do trovão ensurdecedor que tudo abala e desmorona; os ângulos tornam-se agudos até à incandescência fulminante. A luz é um grito a repercutir-se na abóbada celeste que petrificou de lado a lado - um mármore azul impenetrável.
Céu e Terra - mármore e granito; e o pobre tolo emparedado, sem
um gesto libertador, sem uma palavra.
Quer mover os braços; não pode: são os braços duma estátua.
Quer falar, abre a boca, e a boca fica-lhe cheia de silêncio.
O silêncio é um mar onde ele naufragou, seduzido pelo mistério das profundidades tenebrosas.(...)»
Teixeira de Pascoaes in O Pobre Tolo - Prosa e Poesia
terça-feira, 12 de abril de 2005
Só mais um bocadinho de poesia
Uma vaca dizia que faltava poesia neste blog, pois aqui vai uma lindissima de José Luis Peixoto, que continua a ser o único autor português que consigo ler! (Li, minha amiga, já é um passo em frente.....daqui a dias ainda leio Saramago....mentirinha!!!!nem que me matasses Augh!!).
Vou receber muitas criticas de fans do tipo, não vou?
Mas ele ainda é pior do que eu a colocar acentos e pontos!
De qualquer maneira este poema é sobre amor, amor aos livros que nos dão vida e amor à vida que nos dá os livros.
Espero que gostem
"Este livro. Passa um dedo pela página, sente o papel como se sentisses a pele do meu corpo, o meu rosto.
Este livro tem palavras, esquece as palavras por momentos. O que temos para dizer não pode ser dito.
Sente o peso deste livro. O peso da minha mão sobre a tua. Damos as mãos quando seguras este livro.
Não me perguntes quem sou. Não me perguntes nada. Eu não sei responder a todas as perguntas do mundo.
Pousa os lábios sobre a página, pousa os lábios sobre o papel. Devagar, muito devagar. vamos beijar-nos."
José Luis Peixoto; "este livro. Passa um dedo pela página, sente o papel", O Amor in A casa, a Escuridão, pág 19
Vou receber muitas criticas de fans do tipo, não vou?
Mas ele ainda é pior do que eu a colocar acentos e pontos!
De qualquer maneira este poema é sobre amor, amor aos livros que nos dão vida e amor à vida que nos dá os livros.
Espero que gostem
"Este livro. Passa um dedo pela página, sente o papel como se sentisses a pele do meu corpo, o meu rosto.
Este livro tem palavras, esquece as palavras por momentos. O que temos para dizer não pode ser dito.
Sente o peso deste livro. O peso da minha mão sobre a tua. Damos as mãos quando seguras este livro.
Não me perguntes quem sou. Não me perguntes nada. Eu não sei responder a todas as perguntas do mundo.
Pousa os lábios sobre a página, pousa os lábios sobre o papel. Devagar, muito devagar. vamos beijar-nos."
José Luis Peixoto; "este livro. Passa um dedo pela página, sente o papel", O Amor in A casa, a Escuridão, pág 19
segunda-feira, 11 de abril de 2005
O Papa que Deus nos deu
Acabei de ler na SIC online que o jornal britânico o The Guardian (e é um jornal daqueles a sério, não do tipo 24 Horas) dá como favoritos na corrida papal o cardeal português e o brasileiro... e perguntam-se vocês minhas vacas o porquê desta revelação algo incrivel?
Porque ambos falam português e podem assim criar uma forte ligação entre a velha Igreja (Europa) e a nova (América Latina).
Ok,sabemos que cada vez existem menos católicos na Europa e que a América Latina é o "mercado da fé do futuro" mas por amor a Deus não arranjam melhor que isto!!
Não sei se sou só eu, mas para ser Papa não devia ser requesito essencial falar português.
Ser-se um bom católico, aberto à modernidade, com tendencias sociais e ambientalistas e acima de tudo ter muita vontade de tentar mudar o mundo para melhor, mesmo sabendo que é tarefa impossível......
Porque para ocupar a cadeira de Pedro o que é preciso é ter fé na raça humana (por mais dificil que isso seja) e não falar português!!!!!!!!
Porque ambos falam português e podem assim criar uma forte ligação entre a velha Igreja (Europa) e a nova (América Latina).
Ok,sabemos que cada vez existem menos católicos na Europa e que a América Latina é o "mercado da fé do futuro" mas por amor a Deus não arranjam melhor que isto!!
Não sei se sou só eu, mas para ser Papa não devia ser requesito essencial falar português.
Ser-se um bom católico, aberto à modernidade, com tendencias sociais e ambientalistas e acima de tudo ter muita vontade de tentar mudar o mundo para melhor, mesmo sabendo que é tarefa impossível......
Porque para ocupar a cadeira de Pedro o que é preciso é ter fé na raça humana (por mais dificil que isso seja) e não falar português!!!!!!!!
domingo, 10 de abril de 2005
Ainda a eutanásia... e “Romeu e Julieta”
Há dias li uma crónica sobre o eternamente polémico tema da eutanásia, as doenças e a história de Romeu e Julieta, e achei que seria interessante partilhá-lo com vocês. Neste momento devem estar a pensar: o que tem a eutanásia a ver com Romeu e Julieta?? Leiam e vão ficar a saber...
“O drama de Terry Schiavo, a americana em situação de paralisia cerebral a quem os tribunais – contra a vontade dos pais e “defensores da vida”, um vasto leque que vai desde a Igreja Católica ao presidente George Bush e à maioria protestante do Congresso americano – concederam o direito de “não viver indignamente”, que é como quem diz, de morrer, suscitou um profundo e emocional debate sobre o que é a vida, a doença, e o direito de cada um a dispor de si próprio. Metafísicas à parte, isto é, pondo de lado a natureza divina da vida, que é um argumento que vale apenas para quem acredita que a vida é um milagre, a questão mais interessante é perceber de que modo a ciência e a medicina estão a modificar radicalmente a experiência humana. Ao contrário da tradição oriental, que acredita na reincarnação e encara a vida individual não como uma coisa única e irrepetível mas como um episódio apenas de um contínuo eterno, visto que o indivíduo não morre, apenas muda de corpo, a tradição judaico-cristã (e muçulmana) ensinou-nos a sofrer com resignação e coragem a travessia pela terra, o vale de lágrimas, na esperança de ressuscitar um dia e merecer a vida eterna no céu.
Graças à medicina, e ao crescente cepticismo sobre a vida no outro mundo, as pessoas estão menos dispostas a sofrer e muito menos a morrer, e cada vez mais se encara como um direito natural, que o Estado e o Serviço Nacional de Saúde têm de providenciar, atravessar o vale de lágrimas bíblico e chegar ao fim vivo e de boa saúde. Terry Schiavo, se não estivesse a ser alimentada artificialmente já teria morrido de morte natural há 17 anos. Sem a penicilina, os antibióticos, as vacinas, os transplantes, os “pacemakers”, as máquinas de diálise e toda a parafernália de maquinaria que é hoje indispensável em qualquer centro de saúde, e cujo custo é cada vez maior e incontrolável, uma grande parte dos portugueses já teria entregue a alma ao criados. A esperança média de vida aumentou 30 anos num século graças à alimentação, ao saneamento básico e aos médicos.
Cada vez mais o normal não é estar de boa saúde mas estar doente. Em Portugal, os dias perdidos no trabalho por doença ultrapassam os dez milhões, e seriam muito mais se uma quantidade interminável de novas maleitas justificassem a “baixa”. Os portugueses são dos maiores consumidores europeus de anti-depressivos e pílulas para dormir, acompanhando a nova tendência da medicina para considerar os estados de espírito ou maneiras de ser como situações clínicas. A vergonha e a timidez, por exemplo, chamam-se agora “fobias sociais”, e podem-se tratar, não com uns copos e um jantar com amigos, mas com pílulas receitadas por médicos e comparticipadas pelo Estado. Desde que Dr.Freud, o charlatão de Viena, descobriu as doenças da alma, que a indústria farmacêutica descobriu novas maneiras de ganhar dinheiro à custa do feitio de cada um. A paixão infeliz, ou o mal de amor, são já catalogados pelos psiquiatras como “uma doença genuína que necessita de diagnóstico”. Morrer de amor está em vias de deixar de ser um exagero poético para ser uma situação clínica. Romeu e Julieta não morreram por amor. A acreditar nos psiquiatras, estando apaixonados, o que eles tinham era uma doença terminal. Não se suicidaram, exerceram o seu direito à eutanásia.”
José Júdice, in “Metro”, 29/03/05
“O drama de Terry Schiavo, a americana em situação de paralisia cerebral a quem os tribunais – contra a vontade dos pais e “defensores da vida”, um vasto leque que vai desde a Igreja Católica ao presidente George Bush e à maioria protestante do Congresso americano – concederam o direito de “não viver indignamente”, que é como quem diz, de morrer, suscitou um profundo e emocional debate sobre o que é a vida, a doença, e o direito de cada um a dispor de si próprio. Metafísicas à parte, isto é, pondo de lado a natureza divina da vida, que é um argumento que vale apenas para quem acredita que a vida é um milagre, a questão mais interessante é perceber de que modo a ciência e a medicina estão a modificar radicalmente a experiência humana. Ao contrário da tradição oriental, que acredita na reincarnação e encara a vida individual não como uma coisa única e irrepetível mas como um episódio apenas de um contínuo eterno, visto que o indivíduo não morre, apenas muda de corpo, a tradição judaico-cristã (e muçulmana) ensinou-nos a sofrer com resignação e coragem a travessia pela terra, o vale de lágrimas, na esperança de ressuscitar um dia e merecer a vida eterna no céu.
Graças à medicina, e ao crescente cepticismo sobre a vida no outro mundo, as pessoas estão menos dispostas a sofrer e muito menos a morrer, e cada vez mais se encara como um direito natural, que o Estado e o Serviço Nacional de Saúde têm de providenciar, atravessar o vale de lágrimas bíblico e chegar ao fim vivo e de boa saúde. Terry Schiavo, se não estivesse a ser alimentada artificialmente já teria morrido de morte natural há 17 anos. Sem a penicilina, os antibióticos, as vacinas, os transplantes, os “pacemakers”, as máquinas de diálise e toda a parafernália de maquinaria que é hoje indispensável em qualquer centro de saúde, e cujo custo é cada vez maior e incontrolável, uma grande parte dos portugueses já teria entregue a alma ao criados. A esperança média de vida aumentou 30 anos num século graças à alimentação, ao saneamento básico e aos médicos.
Cada vez mais o normal não é estar de boa saúde mas estar doente. Em Portugal, os dias perdidos no trabalho por doença ultrapassam os dez milhões, e seriam muito mais se uma quantidade interminável de novas maleitas justificassem a “baixa”. Os portugueses são dos maiores consumidores europeus de anti-depressivos e pílulas para dormir, acompanhando a nova tendência da medicina para considerar os estados de espírito ou maneiras de ser como situações clínicas. A vergonha e a timidez, por exemplo, chamam-se agora “fobias sociais”, e podem-se tratar, não com uns copos e um jantar com amigos, mas com pílulas receitadas por médicos e comparticipadas pelo Estado. Desde que Dr.Freud, o charlatão de Viena, descobriu as doenças da alma, que a indústria farmacêutica descobriu novas maneiras de ganhar dinheiro à custa do feitio de cada um. A paixão infeliz, ou o mal de amor, são já catalogados pelos psiquiatras como “uma doença genuína que necessita de diagnóstico”. Morrer de amor está em vias de deixar de ser um exagero poético para ser uma situação clínica. Romeu e Julieta não morreram por amor. A acreditar nos psiquiatras, estando apaixonados, o que eles tinham era uma doença terminal. Não se suicidaram, exerceram o seu direito à eutanásia.”
José Júdice, in “Metro”, 29/03/05
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