domingo, 27 de março de 2005

Páscoa Feliz

Só para vos desejar uma Páscoa Feliz! E afoguem-se em chocolates e amêndoas... Beijinhos

sábado, 26 de março de 2005

O Espaço Público

Vê-se que o espaço público falta cruelmente em Portugal. Quando há diálogo, nunca ou raramente ultrapassa as «opiniões» dos dois sujeitos bem personalizados (cara, nome, estatuto social) que se criticam mutuamente através das crónicas nos jornais respectivos (ou no mesmo jornal).
O «debate» é necessariamente «fulanizado», o que significa que a personalidade social dos interlocutores entra como uma mais-valia de sentido e de verdade no seu discurso. É uma espécie de argumento de autoridade invisível que pesa na discussão: se é X que o diz, com a sua inteligência, a sua cultura, o seu prestígio (de economista, de sociólogo, de catedrático, etc.), então as suas palavras enchem-se de uma força que não teriam se tivessem sido escritas por um x qualquer, desconhecido de todos. Mais: a condição de legitimação de um discurso é a sua passagem pelo plano do prestígio mediático - que, longe de dissolver o sujeito, o reforça e o enquista numa imagem «em carne e osso», subjectivando-o como o melhor, o mais competente, o que realmente merece estar no palco do mundo.
José Gil, in 'Portugal Hoje - O Medo de Existir'

sexta-feira, 25 de março de 2005

Ainda o Beijo


Ainda a propósito dos beijos, nesta época pascal e primaveril... Vejam o que nos dizem os nórdicos! Ah, o perfeccionismo sueco...

Alegoria dos Esclarecidos

Um - È isto.
Dois - Não. È aquilo.
...
Um - Acho que não è aquilo.
Dois - Bem, isto é que não è.
...
Um - Dooois...
Dois - Ummm...
...
Um - Doiszinho...
Dois - Unzinho...
...
Um - Twooo...
Dois - Oneee...
...
Um - E aqueloutro?
Dois - Se calhar...!
...
Um - Concordamos então?
Dois - Nem por isso.
...
Um - Afinal, de que é que estás a falar?
Dois - Não sei, e tu sabes?
...
Três - மழையில் நனைந்த
காற்றாய் காதலுடன்
என் மனம்வீசும் வாடைக்
காற்றில்பறக்கும்
...
Um - Epahh... Olha-me este carapau a discordar da gente!
Dois - Pôu'zé, um espertinho. 'Tá mal, 'tá mal...

quinta-feira, 24 de março de 2005

O Riso é o Melhor Indicador da Alma

Acho que, na maioria dos casos, quando uma pessoa se ri torna-se nojento olharmos para ela. Manifesta-se no riso das pessoas, na maioria das vezes, qualquer coisa de grosseiro que humilha a quem ri, embora essa pessoa quase nunca saiba que efeito o seu riso provoca. Tal como não sabe (ninguém sabe, aliás) a cara que faz quando dorme. Há quem mantenha no sono uma cara inteligente, mas outros há que, embora inteligentes, fazem uma cara tão estúpida a dormir que se torna ridícula. Não sei por que tal acontece, apenas quero salientar que a pessoa que ri, tal como a pessoa que dorme, não sabe a cara que faz. De uma maneira geral, há muitíssimas pessoas que não sabem rir. Aliás, isso não é coisa que se aprenda: é um dom, não se pode aperfeiçoar o riso. A não ser que nos reeduquemos interiormente, que nos desenvolvamos para melhor e que superemos os maus instintos do nosso carácter: então também o riso poderá possivelmente mudar para melhor. A pessoa manifesta no riso aquilo que é, é possível conhecermos num instante todos os seus segredos.
Mesmo o riso incontestavelmente inteligente é, às vezes, abominável. O riso exige em primeiro lugar sinceridade, mas onde está a sinceridade das pessoas? O riso exige a ausência de maldade, mas as pessoas, na maioria dos casos, riem com maldade. Um riso sincero e sem maldade é uma pura alegria, mas, nos tempos que correm, onde está a alegria? E poderão as pessoas ser alegres? A alegria é um dos mais reveladores traços humanos, basta a alegria para revelar as pessoas dos pés à cabeça. Por vezes não há meio de percebermos o carácter de uma pessoa, mas basta ela rir para lhe conhecermos o feitio como às palmas das nossas mãos. Só as pessoas desenvolvidas do modo mais elevado e feliz sabem ser contagiosamente alegres, de uma maneira irresistível e benévola. Não falo de desenvolvimento intelectual, mas de carácter, do homem como um todo. Portanto: se quiserdes compreender uma pessoa e conhecer-lhe a alma não presteis atenção à sua maneira de se calar, ou de falar, ou de chorar, ou de se emocionar com as ideias mais nobres, olhai antes para ela quando se ri. Ri-se bem - é boa pessoa. Observai depois todos os matizes: por exemplo, é preciso que o riso não pareça estúpido, por mais alegre e ingénuo que seja. Mal detecteis a mais pequena nota de estupidez num riso, ficai sabendo que a pessoa que assim ri é intelectualmente limitada, apesar de deitar cá para fora um sem-fim de ideias. Mesmo que o riso não seja estúpido, se vos parecer ridículo, nem que seja um pouquinho, ficai sabendo que não há na pessoa que o ri uma verdadeira dignidade, pelo menos uma dignidade suficiente. Por último, notai que, mesmo que um riso seja contagioso mas por qualquer razão vos pareça vulgar, também a natureza dessa pessoa é vulgar, que toda a nobreza e espírito sublime que tínheis visto nela ou são fingidos ou imitados inconscientemente, e que essa pessoa, no futuro, mudará inevitavelmente para pior, dedicar-se-á ao «útil», abandonando sem pena as ideias nobres como sendo erros e paixões da juventude. (...) Apenas entendo que o riso é a mais certeira prova da alma. Olhai para uma criança: só as crianças sabem rir com perfeição, por isso são fascinantes. É abominável a criança que chora, mas a que ri alegremente é um raio do paraíso, é o futuro do homem quando ele, finalmente, se tornar tão puro e ingénuo como uma criança.
Fiodor Dostoievski, in 'O Adolescente'

terça-feira, 22 de março de 2005

Ilhas de Bruma

Parece que finalmente estou de volta, e quero pedir desculpa pela ausência... Mas estou aqui para me redimir dos meus pecados bovinos! E já que esta é uma época de férias, de regresso a casa e à terrinha... e como há pessoas (como eu!) que não vão ter esse previlégio, deixo aqui a letra de uma música que sempre me deu saudades das ilhas...
" Ainda sinto os pés no terreno
Em que meus avós bailavam o "Pézinho"
A "Bela Aurora" e a "Sapateia"
É que nas veias corre-me basalto negro
E na lembrança vulcões e terramotos
Por isso é que eu sou das ilhas de bruma
Onde as gaivotas vão beijar a terra...
Se no falar trago a dolência das ondas
O olhar é a doçura das lagoas
É que trago a ternura das hortências
No coração a ardência das caldeiras
Por isso é que eu sou das ilhas de bruma
Onde as gaivotas vão beijar a terra
Trago o roxo, a saudade, esta amargura
Só o vento ecoa mundos na lonjura
Mas trago o mar imenso no meu peito
E tanto verde a indicar-me a esperança
Por isso é que eu sou das ilhas de bruma
Onde as gaivotas vão beijar a terra
É que nas veias corre-me basalto negro
No coração a ardência das caldeiras
O mar imenso me enche a alma
Tenho verde, tanto verde a indicar-me a esperança
Por isso é que eu sou das ilhas de bruma
Onde as gaivotas vão beijar a terra..."

segunda-feira, 21 de março de 2005

Manifestação

Para que as Bravas continuem a Postar!

(A pedido da Caiê) :)

Grandes Questões dos Nossos Dias

Tenho de confessar: estas questões não são ideias minhas. Mandou-mas um familiar do estrangeiro e apenas a tradução se deve a mim. Vejam lá se não são algumas das penetrantes perguntas do nosso tempo!

1- Porque é que acreditamos que há 4 biliões de estrelas, mas temos sempre de verificar se foi "pintado de fresco"?
2- Porque é que pressionamos o comando com mais força quando as pilhas estão gastas?
3- Porque é que se usam agulhas esterilizadas para a pena de morte por injecção letal?
4- Porque é que, nos filmes, o Tarzan nunca tem barba?
5- Qual é a velocidade da escuridão?
6- Porque é que os pilotos kamikaze usam capacetes?
7- Há lugares de estacionamento marcados para pessoas "não-deficientes" nas Olimpíadas dos Para-Olímpicos?
8- Se a temperatura é de 0 graus hoje, e amanhã estará o dobro do frio... quantos graus estarão amanhã?
9- Se é verdade que estamos aqui para ajudar os outros, que estão os outros a fazer aqui?
10- Podemos chorar debaixo de água?
11- Porque dizemos "dormir como um bebé" quando todos sabemos que os bebés acordam de 2 em 2 horas?
12- Quando os surdos vão a tribunal, também se chama "audiência"?
13- Porque é que os executivos têm escritórios em sítios altos e compram binóculos depois para olhar pelas janelas?
14- Porque é que os médicos têm um biombo no consultório se nos vão ver nus de qualquer maneira?
15- Os casados vivem mais tempo ou só parece mais tempo?
16- Porque é que as pizzas redondas vêm em caixas quadradas?
17- Porque pusemos um homem na Lua antes de pôrmos rodas nas malas de viagem?

E a minha favorita... é linda:

18- Se o Homem evoluíu do macaco... Porque é que ainda há macacos???

domingo, 20 de março de 2005

Primavera

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen

Porque hoje é Dia do Pai...

Eu sei que hoje é aquele dia em que se devem dizer coisas lindas acerca dos nossos papás e dar-lhes uma prendinha. Aparecem reportagens levemente pirosas na TV e outras verdadeiramente emocionantes. Há cartazes que incitam ao consumismo nas perfumarias e lojas de quinquilharias. Há fotos lindas de bebés ao colo de pais, nas revistas, que levam às lágrimas.

Sou suspeita. Detesto "dias de". Porque raio se há-de comemorar coisas óbvias que merecem destaque todos os dias? A Criança, a Mulher, a Mãe, o Pai... são dias sem sentido, porque deles são todos os dias do ano. Isto para quem é criança, mulher, mãe e pai. Ou para quem merece a denominação. Porque como dizia uma colega minha da escola primária - que nunca mais esqueci - "Nem todos os pais são o melhor pai do mundo, sra professora!"

Na minha escola, chegado este dia, tínhamos de fazer postais para os pais. À mão. Grande dia para os artistas, e para os papás que receberiam as cartolinas tipo coração a dizer "Adoro-te; obrigada por tudo o que fizeste por mim; ao Pai mais amigo" e outros mimos. Todos o fazíamos. A verdade é que quase um terço da aula não tinha pai. Minto. Tinha um pai que não merecia cartão algum. Eram miúdos do internato, que tinham sido abandonados pela família, quase todos maltratados pelo pai antes do abandono ou da acção da assistente social, e com péssimas recordações do mesmo. Pais violentos, pais negligentes, pais psicóticos, pais abusadores. Havia mesmo um caso terrível, em que a minha colega chorava de cada vez que se falava no pai, porque tinha cicatrizes no corpo e muitas mais na alma.

Isto para dizer que o dia dos cartõezinhos que, religiosamente, todos éramos obrigados a fazer e decorar, era um pesadelo para 10 pessoas da sala. O meu apelo é só este - que se acabe com a hipocrisia atormentadora de fazer isto nas escolas. Quem tem pai e quer fazer, faz, e leve esta alegria ao seu pai, que bem merece! Há pais incríveis, que merecem o mundo. Beijos para eles! ... Mas quem não tem um pai merecedor de ser assim chamado... nunca deveria ser forçado a passar por esta tortura estúpida do bilhetinho escolar floreado a tinta e recortado, feito entre lágrimas, que só lhe lembra o que sofre, e que atira para o lixo quando sai da aula.

Dia feliz para todos os meninos!