Falar da Eutanásia, para muita gente, é mais ou menos a mesma coisa do que falar de aborto. Se se concorda com um, então também se concorda com o outro, e vice-versa. Durante muito tempo, também pensei assim. Contudo, a “realidade” tem se encarregue de me mostrar que são duas situações muito diferentes.
É muito fácil dizer que se é a favor ou contra a Eutanásia quando o acto em si não passa de um palavrão que parece distante. É muito fácil criticar quem quer a Eutanásia, sem olhar para a vida dessa pessoa. E, aí, tudo o que nós podemos dizer sobre o que se passa na cabeça de quem a pede só pode ser mera especulação, porque nenhum de nós consegue saber o que pensa uma pessoa que está perfeitamente consciente de tudo o que se passa à sua volta mas não o consegue exprimir.
Se é sempre possível apresentar outra solução a quem quer fazer um aborto, não se pode dizer que a opção oferecida a quem procura a Eutanásia seja uma questão de escolha livre. Nem tão pouco me parece que quem procura esta solução o faça de ânimo leve, ou sequer inconscientemente, como acontece a muitas adolescentes que procuram o aborto. Quem escolhe a Eutanásia não o faz porque está profundamente depressivo, nem tão pouco poderia resolver o seu problema se tomasse um Xanax ou um Prozac. Estamos a falar de gente que tem doenças fatais, que não têm cura, nem qualquer tratamento que faça a doença regredir, ou tão pouco que a impeça de progredir. Estamos a falar de gente que já está em fase terminal.
Não é por acaso que, na Holanda, duas das doenças que levam os pacientes a procurar a Eutanásia são a esclorose lateral amiotrófica ou a doença pulmonar obstrutiva crónica. Estamos a falar de pessoas que já sabem que vão morrer. É tudo uma questão de semanas, ou de meses. Mas, até lá, vão ter de ficar confinadas a uma cama, sem conseguir mexer qualquer membro do corpo, sem conseguir emitir qualquer som que se perceba, sem conseguir mastigar ou engolir, sendo alimentadas através de sondas e respirando através de máquinas, mas em grande sofrimento e com plena consciência do que está a acontecer com elas.
A única opção que resta a esta gente é ver a vida prolongada sem que a possam viver minimamente. Por muito que tenham uma família fantásica, sempre presente e positiva, bem como cuidados médicos espantosos, a vida não vai melhorar nunca, nem o sofrimento acabar ou sequer diminuir. Mas será que isso é motivo para escolher avançar com a Eutanásia? Não sei! Mas será que alguém que não esteja nessa situação poderá ser capaz de saber? Duvido!
Sei apenas que não podemos generalizar as coisas. Sei que o perigo de uma lei que autorize a prática livre da Eutanásia é precisamente esse, portanto, prefiro nem sequer levar a discussão por esse caminho.
Também sei que tem uma opinião já formada sobre o assunto, dificilmente a vai mudar, por muito que leia ou investigue sobre o assunto. Pelo menos, até que um dia a doença lhe chegue. Ou chegue a alguém que lhe seja demasiado querido. Nesse dia, se calhar mudam!
A mim aconteceu-me no dia em que diagnosticaram uma Esclerose Lateral Amiotrófica à pessoa que me trouxe a este mundo. Não posso dizer que mudei de opinião sobre a Eutanásia quando isso aconteceu. No meu caso, deixei apenas de ter certezas. E no dia em que essa fase terminal chegar, não sei o que pensarei. Mas tenho a certeza de que por mais que eu esteja a sofrer, nem sequer conseguirei imaginar o que ela estará a sentir. E esse é o problema que a discussão sobre a Eutánasia deixa de fora na maior parte dos casos!